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domingo, 1 de agosto de 2010

A intimidade do autor de A Origem das Espécies

Estreou na última sexta, dia 30, no Cine Com-Tour, Criação (Creation), filme que conta a história de Charles Darwin durante a reclusão que antecedeu o término e o lançamento do clássico A Origem das Espécies, livro que subverteu a maneira do homem enxergar a si próprio e que até hoje suscita as mais fervorosas polêmicas entre os que concordam e os que repudiam sua teoria.

Na viagem que o comandante Robert FitzRoy (1805-1865) fez à América do Sul a bordo de seu famoso HMS Beagle, uma ideia até que interessante surgiu em sua cabeça. Querendo provar que a única coisa que realmente diferia um nativo de um cidadão inglês era o fato daquele ter nascido num lugar que até Deus esquecera, ele fez uma troca que soaria, digamos, politicamente incorreta para os padrões atuais -ou não: crianças por quinquilharias. Pois é… Em troca das cobaias para a até que bem intencionada experiência de transformar nativos sul-americanos em “cristãos educados”, ele deu algumas bobageiras aos índios que, assombrados pelo inusitado da experiência, não pensaram duas vezes para aceitar o escambo.

Bom… Mas até que deu resultado. Os indiozinhos, de fato, aprenderam a se comportar como lordes -fato reconhecido inclusive pela própria realeza britânica-, corroborando assim a tese do comandante inglês. O engraçado, porém, foi que tão logo voltaram para compartilhar o que haviam aprendido com o restante da tribo, as duas primeiras coisas que fizeram foi, justamente, se despir da civilidade dos trajes e partir correndo para o mundo que, à revelia, haviam deixado para trás. Ou seja, mais uma prova da flexibilidade dos nossos mais novos cristãos educados.

O filme

Esta, aliás, é uma das primeiras cenas de Criação (2009), filme dirigido por Jon Amiel em cartaz desde a última sexta, dia 30, no Cine Com-Tour, e uma das muitas histórias que Charles Darwin, na época com cerca de quarenta e poucos anos, contava aos filhos na pacata Down House, casa de campo em que vivia com a família na Inglaterra. Histórias estas vindas não dos livros, mas de sua já vasta experiência em terras distantes a bordo desse mesmo HMS Beagle, marco da busca pelos elementos que mais tarde dariam forma ao clássico A Origem das Espécies, repositório da teoria que subverteu a maneira do homem enxergar a si mesmo, desafiou os dogmas da igreja e ainda hoje suscita as mais fervorosas discussões entre os que concordam com ela e os que a repudiam.

Entretanto, polêmicas à parte, o mote do filme são seus anos de reclusão. Justamente aqueles que antecederam o término e o lançamento do famoso livro. Anos de intensos conflitos internos ligados às suas descobertas e à sua fé, à perda da filha precoce e favorita, ao hiato surgido entre ele e a esposa por conta das crenças em oposição e do virtual distanciamento da família. Fatos que, aos poucos, o jogaram cada vez mais fundo para dentro de si e para o interior do escritório -um dos pouquíssimos lugares que ainda se sentia relativamente à vontade- e que tiveram que ser superados para que a obra fosse concluída.

No filme, Paul Bettany está muito bem caracterizado no papel de Darwin e Jennifer Connelly, sua esposa também na vida real, dá a devida discrição à religiosa Emma. Todavia, não espere nada de concreto em relação às incursões de Darwin a bordo do Beagle, nem mesmo às polêmicas geradas após a publicação da obra. Os maiores atrativos do longa estão, exatamente, na oportunidade de conhecer a intimidade do autor num momento crucial de sua vida e carreira -que, aliás, mexeu profundamente com nossas próprias vidas- e também no fato de que o roteiro, de John Collee, foi baseado no livro Annies’s Box, do ambientalista inglês Randal Keynes, tataraneto de Darwin. Não deixe de vê-lo.

 

Até a próxima!

[ChuckWilsonDB]

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Criação (Creation, Inglaterra, drama, 148min, 2009). Diretor: Jon Amiel. Elenco: Paul Bettany (Charles Darwin), Jennifer Connelly (Emma Darwin), Jeremy Northam, Toby Jones, Benedict Cumberbatch, Jim Carter, Martha West (Annie Darwin). Onde: Cine Com-Tour UEL. Av. Tiradentes, 1241. Quando: 30/07 a 05/08 com sessões às 16h e às 20h30. Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Maiores informações: 43.3347.8639 (das 14h às 18h).

sábado, 24 de julho de 2010

Sede de Sangue, de Park Chan-Wook, estreia no Cine Com-Tour

Estreou ontem, dia 23, no Cine Com-Tour, Sede de Sangue (2009), último filme do sul-coreano Park Chan-Wook, diretor da aclamada Trilogia da Vingança, conjunto vencedor de importantes prêmios, dentre os quais o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, em 2004, por Oldboy.

 

A Trilogia da Vingança, do sul-coreano Park Chan-Wook, é composta por Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005). (Fotos: Divulgação)

Sede de Sangue

Sang-Hyun, padre católico, correto e idealista, se oferece para participar, como cobaia, do desenvolvimento de uma vacina para a cura de um vírus mortal. Inoculado em seu corpo, não demora muito para que os sintomas apareçam, ele enfraqueça e morra em seguida -assim como todos os demais voluntários. Entretanto, segundos após sua morte, algo estranho acontece e ele retorna à vida.

Por ser padre, ter sido o único “sobrevivente” do processo e, principalmente, por ter sido trazido de volta à vida, assim que sai do confinamento, passa a ser visto como uma espécie de santo milagreiro. Porém, ao contrário do que aconteceria aqui no Ocidente -principalmente, num país católico como o nosso-, a situação não chega a fugir do controle e ele continua tendo uma vida relativamente tranquila como pároco e voluntário num hospital. Isto, é claro, até ser abordado por uma mãe em desespero que, ciente do episódio, suplica sua interceção junto ao filho com câncer.

Ao ser atendido, entretanto, o paciente percebe tratar-se de um velho amigo de infância e, considerando que, de fato, tem uma melhora súbita -independente desta ter sido ou não fruto das orações-, o padre passa a frequentar sua casa, repartir lembranças, amigos e, mais tarde, sua própria esposa. Fato, aliás, que tem início no exato momento em que começam a pipocar os primeiros sintomas de que algo de muito estranho ocorrera assim que recebeu o sangue desconhecido -que, aliás, mais tarde entendeu não ter sido apenas o responsável por trazê-lo de volta à vida, mas também por transformá-lo… num vampiro.

Apesar do inusitado da situação, o mais interessante a partir daí, é justamente a reviravolta que ocorre na vida de todos ao seu redor, mas acima de tudo -como já era esperado-, em sua própria vida e na da amante. Primeiro, pela ampliação do conflito interno já exercido pelo sacerdócio e pelo celibato e por sua nova condição animalesca, instintiva e sobre-humana, em que os desejos -antes, suficientemente contidos- passam a aflorar como jamais o fizeram. Mais tarde, pelo que torna sua amante, que por não compartilhar de suas crenças, toma um rumo que vai exigir ainda mais de sua fé e de suas estruturas moral e psicológica, já tão abaladas.

Apesar do início um pouco lento, principalmente para quem não está habituado a esse tipo de filme, o diretor consegue atualizar o gênero de forma verossímel -até onde isto é possível, obviamente-, mas, principalmente, sem cometer o despautério de propor vampiros vegetarianos e que brilham à luz do sol. O final, clássico, porém permeado de bom humor e criatividade -uma constante ao longo do filme, apesar do (supostamente) desmentido do trailer-, honra a tradição vampiresca e faz deste mais um ótimo filme do diretor sul-coreano. Não deixe de assisti-lo.

Até a próxima!

[ChuckWilsonDB]

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Sede de Sangue (Thirst, Coreia do Sul, terror, 133 min, 2009). Diretor: Park Chan-Wook. Elenco: Kang-ho Song, Mercedes Cabral, Ok-bin Kim, Hae-sook Kim, Ha-kyun Shin, In-hwan Park. Onde: Cine Com-Tour. Av. Tiradentes, 1241. Quando: 23-29/07 com sessões às 16h e às 20h30. Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Maiores informações: 43.3347.8639 (das 14h às 18h).