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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os projetos de Monique

Somente após a banda EX! ser anunciada no line-up do Planeta Terra em 2009, é que o nome de sua vocalista deixou de ser uma incógnita para mim. Mas ao invés de apenas criticar a escolha, resolvi ir em busca de mais informações e acabei descobrindo que ela, Monique Maion, 24, além de estar em meio a quatro (bons) projetos paralelos, MonMaion, Sunset, Die Katzen e EX!, faz parte de um coletivo de artistas que compõem uma parcela bem interessante do que tem rolado de bom no atual cenário independente paulistano.

Do mundo corporativo ao cenário independente

Apresentada pela revista Rolling Stone como a “nova voz paulistana”, Maion estuda música desde os sete anos e compõe desde os quatorze. Formada em canto e, o mais inusitado, em Ciências Contábeis, atuou durante quatro anos na gigante global PricewaterhouseCoopers (firma especializada em consultoria, auditoria e outsourcing) auditando grandes corporações, antes de se entregar definitivamente à música e ao cenário independente.

Rolling Stone Brasil (Foto: Divulgação)

MonMaion

O primeiro projeto -solo, ma non troppo, já que ultimamente tem sido acompanhada por uma banda fixa e com voz ativa no processo criativo- recebeu o nome de MonMaion. Nele, ela encarna a prostituta Lola, descrevendo suas venturas e desventuras, em composições próprias influenciadas pelo blues e pelo jazz e também por nomes do calibre de Tom Waits e Annette Peacock. Isto, claro, acompanhada de excelentes músicos como Fernando Coelho na guitarra e Ladislau Kardos na bateria -ambos do Mamma Cadela; Maurício Biazzi no baixo acústico -integrante da icônica Patife Band de Paulo Barnabé; e Piero Damiani no piano Rhodes, que também toca na Numismata. Recentemente, gravou seu primeiro álbum, Lola -que aliás, ficou bem bacana-, com produção de Luiz Thunderbird.

Monique Maion na pele de Lola, o alter ego que dá vida ao trabalho solo, MonMaion (Foto: Divulgação)

Sunset

O outro trabalho, mais simples e acessível, é uma parceria entre ela e Gustavo Garde, vocalista da  Seychelles -outra banda paulistana bastante competente e já resenhada aqui no blog [leia]. Nele, ambos conseguem imprimir um toque pessoal nas composições que vão do country ao folk e ao rock, desembocando num tropicalismo mambembe e rural que, não  à toa, foi gravado num sítio onde se mantiveram presos, somente quatro meses após terem se conhecido.

Run With Me, destaque do único EP gravado pela dupla, o homônimo Sunset.

Die Katzen

O terceiro trabalho -meu favorito, aliás-, é a banda Die Katzen, de viés mais experimental e eletrônico, que lembra em vários momentos o trip hop do Portishead, só que não com Beth Gibbons no vocal, mas… com Róisín Murphy, a bonita e talentosa vocalista do já extinto Moloko. Com composições que remetem a um “submundo sarcástico, erótico, imprevisível e auto-sustentável”, como ela mesma as descreve em entrevista a Alex Correa da Reverbcity, portal especializado em moda e comportamento indie-rocker, o trio -que também é formado por Renato mCortez (Seychelles) e Ismael Sendeski (Mamma Cadela)- ainda não se apresentou ao vivo e apenas recentemente disponibilizou para streaming seu primeiro EP no Myspace. Altamente recomendável.

EX!

Já em relação ao seu mais recente trabalho, a banda EX!, o enfoque muda e torna-se mais dançante e desencanado, porém não menos bem produzido; aliás, muito pelo contrário. De raiz electro-pop, a banda que recentemente fez parte do line-up do último Planeta Terra, tem direção musical de Arthur Joly, músico que faz um interessante trabalho dentro da música eletrônica, além de ser fundador da gravadora Reco-Head e guitarrista da banda; direção artística de Carlos Pazetto (Brazil’s Next Top Model), referência na produção de eventos e desfiles no mercado de luxo brasileiro; fotografia do stylist Ciro Midena; além de contar com a parceria, diria, estratégica, da Chilli Beans, maior rede de óculos escuros do país e fornecedora de importantes marcas como Forum, Zoomp e Iódice.

Monique se apresentando com a banda EX! no Planeta Terra 2009 (Foto: Divulgação)

Aliás, este último ponto é interessante, pois é muito provável que essa impetuosidade e esse desprendimento mercadológicos sejam reflexos de sua formação acadêmica e também da experiência profissional adquirida em sua passagem pelo universo corporativo, que na medida certa, a afasta do famoso preconceito que diz que negócios, entretenimento e cultura não podem conviver em harmonia.

Making of: EX! se apresentando no Coca-Cola Clothing, festa de encerramento do Fashion Rio deste ano e que teve a produção de Carlos Pazetto. (Vídeo: Arthur Joly)

A Firma

E certamente, não poderia deixar de finalizar este post sem voltar a mencionar o tal coletivo de artistas que Monique faz parte, a Firma. E isto, simplesmente, porque ele compõem um leque interessante de bandas como Mamma Cadela, Seychelles, Ludov, Ancestral, Liga Leve, Sala do Aborto, Heroes, ILoveAmy, além dos projetos já mencionados da cantora e mais alguns outros que ilustram bem -como já havia dito- o atual cenário independente paulistano. Ouça sem preconceito.

Até a próxima!

[ChuckWilsonDB]

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Veja também:

Monique Maion gravando Monkey Skull, do álbum Lola, para o quadro 10 Horas no Estúdio do programa Radiola (Trama).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Música com sanduíche de mortadela

Minha última passagem por São Paulo, como não podia deixar de ser, foi fantástica em alguns aspectos, frustrante em outros. Fantástica, pois numa mesma noite assisti a dois shows sensacionais que eu já havia perdido em 2005, no Claro que é Rock, e que pensei que jamais teria a oportunidade de vê-los juntos novamente -ao menos, não no Brasil: Sonic Youth e o lendário Iggy and the Stooges.

Ah, claro! Tiveram outros -afinal de contas, era um festival. E alguns muito bons como no caso dos brasileiros EX! (SP), Macaco Bong (MT) e Móveis Coloniais de Acaju (DF) -que, diga-se de passagem, eu perdi por ter não ter conseguido chegar a tempo no Playcenter, local dos shows-; dos britânicos Primal Scream -mornos na ocasião-, Maxïmo Park e Patrick Wolf; do mezzo brasileiro N.A.S.A. e dos DJs Anthony Rother (Alemanha) e Etienne de Crécy (França).

Kim Gordon (Sonic Youth) rodopiando no palco: entusiasmo de adolescente (Foto: Reinaldo Marques - Terra)

Mas nada que rivalizasse com os dois -e mais um terceiro que vocês logo saberão qual é- que nos proporcionaram momentos antológicos como o tombo -ou o quase-tombo da onde eu estava- da Kim Gordon no palco, desequilibrada pelos rodopios infantis -e alucinados- de quem estava satisfeita por estar onde estava; a invasão de um centena de fãs ensandecidos a pedido de um Iguana igualmente insano que do alto dos seus 62 anos, com sua lordose a tiracolo e seu saracoteio tradicional, viu mais tarde serem expulsos com truculência pelos seguranças que não pouparam sequer os fotógrafos que, assim como eles, estavam ali a trabalho; ou ainda sua já famosa bunda de fora ao final do show com a sensacional Lust for Life (ouça abaixo – 4’40) que os menos desavisados devem conhecer da trilha de Trainspotting.

Fãs atendendo ao pedido de um “solitário” Iggy Pop no palco: “I’m alone” - reparem que eu apareço bem no meio da gravação (Vídeo: CWDB)

E ainda houve tempo para uma segunda invasão -igualmente animada, porém desta vez pacífica-, e justamente no palco da tal terceira opção mencionada a pouco, o N.A.S.A. (North America South America), grupo formado pelo produtor Sam Spiegel -irmão do cineasta norte-americano Spike Jonze- e pelo ex-Planet Hemp DJ Zegon. O show, com seus samplers, robôs e alienígenas b.boys, acabou superando minhas expectativas e, juntamente com Iggy e seus “patetas” e o Sonic Youth, figurou entre os pontos altos do festival -dos que eu pude conferir, obviamente. Isto sem contar o próprio Playcenter, com seus brinquedos liberados, sua bem estruturada praça de alimentação e suas grandes filas molhadas pela chuva -às vezes fina, noutras nem tanto- que insistiu em cair durante boa parte do festival.

Assista com ou sem legendas.

Terminado o festival -não antes de andar em pelo menos dois dos brinquedos-, nos juntamos, pegamos um táxi e voltamos ao hotel que ficava quase encostado ao Playcenter. Pegamos um taxista com cara de poucos amigos -talvez por conta do valor da corrida, inexpressivo pela distância- e fomos embora. Cheguei, empacotei, mas não antes de ajustar o despertador do celular para me acordar algumas poucas horas mais tarde -umas duas ou três mais ou menos. Afinal, um sanduíche de mortadela me aguardava ansioso no mercadão.

Qualquer semelhança com o Teatro Municipal não é mera coincidência. O escritório Francisco Ramos de Azevedo, responsável pela construção do mercadão, também assinou o projeto do teatro. (Fonte: Reprodução - NossaCozinha)

E é justamente aí que reside a minha frustração. Pois apesar dos shows memoráveis, do parque de diversões, das companhias agradáveis e da minha quase-invasão de palco no show dos Stooges -já que eu apenas pulei a grade e fiquei no fosso junto aos fotógrafos, visto que, naquela altura, os seguranças já estavam distribuindo sopapos em quem quer que se atrevesse a cruzar seus caminhos-, minha estada havia sido reduzida para antes do almoço, mesmo tendo todo o domingo pela frente e estando a apenas oito míseras horas de distância de Londrina; e isto de ônibus!

O famoso sanduíche de mortadela do mercadão em São Paulo (Foto: Reprodução – Seu Restaurante)

Frustrado -pero no mucho, já que na volta pra casa esbarramos com o Sonic Youth no Hilton-, fui obrigado a adiar mais uma vez o sanduíche de mortadela do Bar do Mané no mercadão e, pior, deixei de conferir a tão aguardada exposição d’osgemeos no MAB (Museu de Arte Brasileira da Faap). Aliás, para quem ainda não os conhece, são dois gêmeos idênticos, grafiteiros e artistas plásticos, que extrapolaram os muros paulistanos e passaram a expor/grafitar nos principais museus e galerias de arte do mundo, como o Tate Modern em Londres, a Deitch Projects em Nova York e, pasmem, até num importante castelo escocês.

Os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo (Foto: Reprodução - Galeria Fortes Villaça)

E é por isto que no(s) próximo(s) posts eu irei apresentar os resultados dos meus passeios pelos mercadões aqui de Londrina. E isto pra ver em que pé estão; se relegados à própria sorte ou se estão conseguindo se adaptar às exigências de seus frequentadores; normalmente, mais exigentes do que a média. Ao menos pra compensar parte da minha mezzo frustração, já que nem a capital paulista deve receber, tão cedo, outra mostra parecida como a apresentada pelos irmãos Pandolfo no MAB. Fazer o quê?

Até a próxima! :)

[ChuckWilsonDB]

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Saiba mais:

O bom e velho Iggy and the Stooges [Leia]

Planeta Terra 2009: finalmente! [Leia]

Um dia a mais na capital paulista [Leia]

Osgemeos: abertura da mostra [Leia]

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Veja também:

Nosso providencial esbarrão com o Sonic Youth e o Copacabana Club no Hilton Hotel (Vídeo: CWDB)

Nosso grupo de volta ao micro-ônibus – Rumo à Londrina (Vídeo: CWDB)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Planeta Terra 2009: finalmente!

Consolidado como um dos maiores festivais do país, a edição deste ano do Planeta Terra Festival acontecerá amanhã, dia 7 de novembro, no Playcenter em São Paulo. As atrações, 14 ao total, estarão divididas em dois palcos, conforme segue:

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SONORA MAIN STAGE

(clique sobre os links para conhecer melhor cada banda)

16:00 - 17:00 - Macaco Bong

17:30 - 18:30 - Móveis Coloniais de Acaju

19:00 - 20:00 - Maxïmo Park

20:30 - 21:45 - Primal Scream

22:00 - 23:30 - Sonic Youth

00:00 - 01:30 - Iggy and The Stooges

02:00 - 03:00 - Etienne de Crécy (live act)

 

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COCA-COLA ZERO STAGE

17:00 - 17:45 - Fuja Lourdes (vencedora do concurso Hit Zero)

18:00 - 19:00 - Ex!

19:30 - 20:30 - Copacabana Club

21:00 - 22:00 - Patrick Wolf

22:30 - 23:40 – Metronomy

00:00 - 01:00 - The Ting Tings

01:30 - 02:30 - N.A.S.A.

03:00 - 04:00 - Anthony Rother (live act)

 

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INFORMAÇÕES IMPORTANTES SOBRE O FESTIVAL


LOCAL

O Playcenter fica localizado na Rua José Gomes Falcão, 20, no bairro da Barra Funda. Para quem optar por ir de carro, haverá estacionamento no local e transfer até a entrada do evento. Também haverá serviço de táxi disponível.

Iggy Pop (Foto: Guy Eppel, Flickr)


ENTRADA

A abertura dos portões ocorrerá às 14h e os brinquedos do parque começarão a funcionar a partir deste horário. Verifique em seu ingresso por qual dos portões você irá entrar, se pelo portão "P1" ou "P2". Para ingressar no Playcenter será obrigatório apresentar um documento original com foto. No caso de estudantes, também será necessário a carteira de estudante com data de validade (ou um comprovante de matrícula de 2009), além de um documento original com foto.

Clique sobre o link e conheça mais detalhes sobre como chegar (de carro ou de ônibus) ao local do evento.


O QUE SERÁ E O QUE NÃO SERÁ PERMITIDO

Câmeras fotográficas estão liberadas. Porém é proibida a entrada de gravadores e filmadoras e também está vetada a entrada de quaisquer tipos de arma, caixa, foguete, objeto pontiagudo (de vidro, plástico ou metal), assim como bebidas e alimentos. A censura é 18 anos.

Sonic Youth (Foto: wrappedupinbooks, Flickr)


BRINQUEDOS EM FUNCIONAMENTO

Cataclisma, Evolution, Wave Swinger, Barco Viking, Swing Dance, Waimes, Monga, Boomerang, Double Shock, Looping Star, Turbo Drop, Windstorm, Auto Pista, Tattoo Mania e Sky Coaster (este último, no entanto, será cobrado a parte - R$ 79,80 o vôo triplo).

Primal Scream (Foto: Quique López, Flickr)


FIQUE POR DENTRO


 Fã de São Paulo, guitarrista do Sonic Youth fala da apresentação. [Leia]

"Vou fazer esse show valer a pena", afirma Iggy Pop. [Leia]

Iggy and The Stooges fazem ensaios secretos para o Planeta Terra em São Paulo. [Leia]

Primal Scream é um dos maiores nomes do rock escocês. [Leia]

Maxïmo Park revitalizou pós-punk no Reino Unido. [Leia]

Móveis Coloniais de Acaju: "Queremos impressionar quem não nos conhece" [Leia]

Trio do Macaco Bong mostra rock instrumental com peso. [Leia]

Estacionamentos para o Planeta Terra terão 2 mil vagas. [Leia]

Confira o Planeta Terra Festival 2009 ao vivo no Terra TV [Leia]

 

 

Maxïmo Park (Foto: Guy Eppel, Flickr)

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Planeta Terra Festival 2009. Onde: Playcenter (r. Rua José Gomes Falcão, 20, Barra Funda, São Paulo, SP). Quando: sábado, 07/11, a partir das 14h. Informações sobre ingressos: Ticketmaster ou pelo Call Center 0++/11/2846-6000.

[ChuckWilsonDB]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O bom e velho Iggy and The Stooges

Quando foi anunciado o Claro que é Rock em 2005, eu já havia comprado o ingresso para o Tim Festival que, na ocasião, traria The Strokes, Kings of Leon, The Arcade Fire, M.I.A. e Mundo Livre S/A para o Anhembi. Como eu iria com um grupo de amigos e o ingresso não era dos mais baratos, não foi possível encarar os dois festivais de uma vez - ainda mais porque a viagem ficaria muito mais cara indo sozinho. Resultado: não pude invadir o palco dos Stooges, reclamar do som no show do Sonic Youth, socar (no melhor dos sentidos) a bolha transparente do Wayne Coyne, nem curtir o "industrial" do Trent Reznor. Ah... E ainda tinha a Nação Zumbi e o Fantomas, do nosso amigo Mike Patton - que estranhamente também estará em São Paulo no mesmo dia 07 de novembro, só que com o Faith no More.


Wayne Coyne, do Flaming Lips, no Claro que é Rock 2005.
[Crédito: Marcos Hermes at whiplash.net]

Mas depois de muito falatório e uma demora preocupante para a definição do line-up do Planeta Terra deste ano, finalmente, os caras anunciaram as duas atrações que, a meu ver, já valem o festival: Iggy and the Stooges e Sonic Youth. Uma espécie de redenção pessoal, já que eu perdi a oportunidade de vê-los, e também um muito bem vindo revival do que foi o Claro que é Rock em 2005. Exagero? Não creio. Sacanagem com a memória do Tim 2005? Afinal, o show do Arcade Fire foi sensacional. Talvez. Mas e daí?


Arcade Fire no Tim Festival 2005. Anhembi, São Paulo.
[Crédito: "flaviadurante" at Flickr]

Bom, mas apesar da importância do Sonic Youth para o rock dito alternativo, e mesmo para mim como fã, peço licença para me focar apenas nos Stooges desta vez; estes, sem dúvida alguma, responsáveis por algumas das histórias mais interessantes e, por que não?, tragicômicas, não só da chamada Blank Generation, como do próprio rock´n´roll. Como, por exemplo, o episódio em que Iggy se encontra com Wayne Kramer após o término da banda do ex-líder do MC5. Época em que este estava brigado com os demais ex-integrantes e que, no sentido de completar o vazio dessa perda, da vida no MC5, acabou por se tornar bandido e traficante.


Sonic Youth

Por conta de uma antiga dívida que Iggy contraiu quando os dois começaram a traficar juntos - pouca coisa, algo como US$ 200 aproximadamente -, Kramer o encontrou acompanhado de um capanga (ele tinha receio que Scoth Asheton interferisse) no hotel onde os Stooges estavam hospedados. Apesar de ter refrescado a memória do Iguana quanto à dívida, o "combinado" seria que a grana de Iggy seria trocada por heroína. No entanto, ao entregar o dinheiro, Kramer disse algo mais ou menos assim: "Estamos quites, agora!" O quê? Quer dizer que não tem droga?, teria perguntado um Iggy atônito. "Não", teria sido a resposta. Iggy então começa a chorar, quando o capanga de Kramer, comovido, o abraça e diz algo como: "Calma irmão, são apenas drogas. Não fica assim."


Iggy and The Stooges com James Williamson e Scott Thurston.

Ou então outros episódios antológicos como o show que antecedeu a gravação do Metallic K.O. no Michigan Palace, último show da carreira da banda até então. Dias antes, Iggy entraria em conflito com um grupo de motoqueiros durante uma apresentação e saltaria do palco vestido de bailarina em direção ao cara que mais o importunava na platéia. Acabou surrado - o que em qualquer outro caso, teria acabado imediatamente com o show. Mas não, não com os Stooges.

Recuperado, segundo o próprio Iggy Pop em depoimento a Legs McNeill e Gillian McCain no livro "Mate-me Por Favor" (ed. L&PM), ele volta ao palco e, junto com a banda, tocam uma versão gigantesca de "Louie, Louie" (segundo Lester Bangs, de mais de 40 minutos), alternando os versos originais com outros improvisados e repletos de xingamentos direcionados aos caras que, além de retribuirem a gentileza, somaram à ela uma saraivada de garrafas e outros objetos que foram jogados ao palco. Ah... É válido ressaltar que na versão de Bangs em seu livro "Reações Psicóticas" (Psychotic Reactions and Carburetor Dung), da ed. Conrad, a ordem dos fatores não é exatamente a mesma.

Mas enfim, foi somente com a vinda da polícia que o show, finalmente, acabou. Porém, não, não é o fim da história. Ainda não satisfeito, o Iguana vai à uma estação de rádio local (não exatamente na sequência) e faz uma nova provocação aos motoqueiros que, segundo Bangs, é respondida por meio de um telefonema: caso o tal show do Michigan Palace ocorresse, os Stooges seriam mortos pela gangue. Resumindo, o show acabou acontecendo e uma nova batalha foi travada, já que a banda foi acompanhada desta vez de sua própria gangue de motoqueiros que ali mesmo do palco, rivalizou com a platéia durante todo o show. E não, ninguém morreu.


Iggy Pop: Quem precisa de bolha, Wayne?!

Agora... Engana-se quem pensa que eles nunca mais teriam problemas com motoqueiros. Por alguma razão, Scott Asheton acabou contraindo uma dívida que os obrigou a transformar a Fun House numa verdadeira fortaleza, com tapumes em portas e janelas (que eram devidamente arrancados e recolocados à medida que entravam e saiam da casa) e recheado de armas como medida de segurança - que, aliás, acabou se mostrando desnecessária, já que eles nunca apareceram para cobrá-la. Por conta disto, e já que o prédio seria demolido pelo município, não perderam a viagem. Descarregaram todas elas na casa mesmo, adiantando parte do serviço.

É, realmente o que os caras mais têm são histórias. E das boas. Histórias estas que podem ser conferidas nesses dois livros citados a pouco: "Mate-me Por Favor" e "Reações Psicóticas". Ambos, aliás, podem ser encontrados facilmente em qualquer grande livraria como Saraiva, Cultura ou FNAC. Ah, detalhe: o "Mate-me Por Favor" foi desmembrado em dois volumes pela L&PM e transformado numa versão pocket, porém sem prejuízo ao texto que ainda permanece integral.

Em suma, se a apresentação dos Stooges for como de costume, podemos esperar grandes momentos deste festival. E isto, independentemente, da baita falta que fará o grande Ron Asheton, falecido recentemente e substituído pelo ex-guitarrista dos Stooges, James Williamson, co-autor de Raw Power juntamente com Iggy Pop. Aliás, justamente por isso, é que poderemos rever a íntegra desse grande álbum. Uma ironia, mas enfim...



Iggy and The Stooges no Claro que é Rock 2005. Chácara do Jockey, São Paulo.


[ChuckWilsonDroogieBoy]